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terça-feira, 11 de agosto de 2009

Recomeço

Temos de falar!
O tom de voz decidido, firme, imperativo, alarmou-o, nunca tinha falado assim, sempre que lhe ouvia esse pedido o tom de voz era humilde, quase choroso. Detestava, ficava irritado quando vinha com "falinhas mansas" fazer cobrança: onde ia? Com quem ia? Se chegava tarde? Se não vinha jantar? Porra! Estava sempre a pedir explicações, sabemos, é do conhecimento comum, que os homens perante esta frase, "temos de falar" ficam com nervoso miudinho, odeiam, quando as mulheres com quem mantém relacionamentos: mãe; esposa; namorada; amante, os "encostam à parede", quando se atrevem a pedir explicações, quando querem falar de sentimentos e de emoções e principalmente quando pensam que estão a ser julgados e criticados. Ela fazia-o quase diariamente, "que seca", estava a fartar-se, apenas queria sair à noite, beber uns "copos" com as amizades, ver "gajas bué da boas", qual o mal, tinha de admitir que já tinha "pulado a cerca" mas era homem! Qual o problema? Tinha direito a divertir-se e depois os "casos" não eram nada de sério, apenas umas "curtes" na noite, outras iam por vezes um pouco mais longe, mas terminavam assim que elas lhe "chateavam os cornos".


Ficava confundido, alinhavam na brincadeira, nunca lhes prometia nada, porque razão depois de umas "quecas", julgavam-se no direito de lhe colocar "trela". Isso era também aplicado à legitima, se não gostava que lhe "desamparasse a loja", que fosse "pregar para outra freguesia", mas era só "conversa fiada", se a mulher tivesse alguma vez a ousadia de o abandonar rachava-a de alto a baixo, dava-lhe um enxerto, que nunca mais se endireitava, nenhuma mulher lhe dava com os pés e ela não era excepção. Dava-lhe tudo, trabalhava que nem um "cão danado", comprou-lhe uma casa, deixou-a mobilar segundo os gostos dela, o que é que queria mais? Um dia concordou, "deixou-a" ir trabalhar, a ideia inicialmente não lhe agradou, mas depois ficou satisfeito por deixar, ela até deixou de o "atazanar" e cumpria as obrigações que competem a qualquer esposa sem reclamar.


"Deixa-la" trabalhar naquele "parte time", ou lá como é que isso se chama, foi mesmo uma boa decisão, há dois meses que não lhe ouvia pio, nunca mais ouviu a choradeira porque ficava sozinha em casa, nem reclamações quando entrava em casa com "bezanas" de "caixão à cova", nem se lastimava quando alguma "puta de merda" das amigas lhe contava que ele andava com "sicrana ou com beltrana". Achou que tinha trabalhado o visual, estava mais bonita, mais magra, até os novos trapinhos lhe ficavam "a matar", até começava a ter um "fraquinho" por ela! Deixava-a ficar com o ordenado, assim podia ir ao cabeleireiro, à manicure, e até àquela "modernice" onde faziam massagens, ela também já lhe tinha dito que ia a um ginásio à tarde, três vezes por semana, ia-lhe fazer bem, à cabeça e ao corpo, estando ocupada não o chateava. Fez-lhe apenas uma advertência: para onde quer que fosse: cabeleireiro, massagista, e no ginásio o "profissional trener", ou coisa parecida, fossem mulheres, nunca se sabia, era melhor jogar pelo seguro.


Naquela manhã levantou-se quase sóbrio e a cabra aproveitou para lhe dizer que queria o divórcio, divórcio? A ele nenhuma cabra pedia o divórcio, com a breca! Pregou-lhe uma estampilha que a fez cair desamparada no chão da cozinha. Divórcio! mas que raio! divórcio para quê? Não estava satisfeita, trabalhava, ele até tinha deixado, ficava com o ordenado, tinha amigas, que na sua opinião era todas umas cabras convencidas e arrogantes, mas eram amigas dela, que se lixassem. Nem teve um "grilinho falante" para lhe dizer que se esquecia quase da sua existência, via-a realmente, mas como dona-de-casa, a esposa que esperava por ele, quando regressava das "ramboiadas", a mulher, a fêmea é mais correcto, ele esqueceu, muitas noites a deixou sozinha, chegava de madrugada, outras vezes a noite já ia a meio, estava tão bêbado que nada nele funcionava, nem se apercebia que ela se levantava e ia para outro quarto.
Agora queria o divórcio? Porquê? Naquele cérebro, danificado pelo álcool, fez-se luz, será que o anda a encornar? Tinha de lhe dizer na cara! Um jorro de obscenidades saia-lhe da boca, assim como ameaças de morte, quando a encontrasse dava-lhe "cabo do canastro". Entretanto ela saiu rapidamente de casa, pegando na saída uma mala que antecipadamente tinha feito. Ficou possuído, nenhuma filha da puta o deixava, foi ao quarto convencido que a iria encontrar a carpir as mágoas, mas não estava, também não se encontrava em qualquer outra divisão. Procurou-a por todos os locais onde possivelmente se poderia acoitar, mas nada, nem sombra. Tentou saber junto das amigas, mas estas nem lhe davam conversa, não sabiam de nada , diziam elas, cabras!


Recebeu através de uma notificação o pedido de divórcio, não lhe iria dar tal prazer, se pensava em ficar com uma parte dos bens, tirasse dai a ideia, tirasse "o cavalinho da chuva"! Não levava dali nem um "tusto", punha fogo à casa, depois queria lá saber, que fosse para o raio que a partisse! Foi convocado por um advogado, até tinha advogado, estava cheia de "guito", a merdosa. Decorreram uns meses sempre a negar-lhe o divórcio, havia de cá vir pedir "batatinhas", pensava ele, cada vez bebia mais, havia dias que nem saia de casa tal o estado de prostração , estava num beco sem saída, o chefe já o tinha avisado que um dia deste ia para o olho da rua. Que puta de vida, aquela cabra havia de lhe pagar bem caro, abandoná-lo, a ele que nenhuma mulher virava as costas, quem é que ela se julgava, quando a apanhasse a jeito fazia-a em merda. O álcool dominava-o, era a sua melhor companhia, já bebia sozinho, as amizades esqueceram-no, às mulheres causava repugnância e afastavam-se indignadas com as propostas.
Morreu num acidente de viação, como peão, uma noite ao voltar para casa, com uma "cadela", saiu de repente do passeio e foi colhido por um carro que circulava a alta velocidade, foi projectado para o passeio oposto.
Ela soube pelo advogado que era viúva, friamente pensou que foi melhor assim, acabava-se aquela guerra fria, que a qualquer momento poderia levar a confrontos. Voltou para tratar das formalidades, ainda era casada com ele, para a família dele, apenas tinha um irmão, cunhada e um sobrinho, nem se dignou olhar, saiu do cemitério de cabeça erguida antes do corpo descer à terra.
Conheceu-o aproximadamente há dois anos, entrou na sua vida e abriu-lhe as portas da felicidade. Quando se conheceram foi o sentido de humor que os aproximou, ele fazia-a rir e ela descobriu que tinha essa mesma capacidade, fazer rir. Foram partilhando gostos comuns, indo à descoberta fascinante das respectivas personalidades, depois a sedução entrou em jogo e os corpos atraíram-se como ímanes, ele descobriu um vulcão, ela descobriu um mago. Sumiram-se os dois no mundo, durante uns tempos soube para onde, foram para muito longe, depois perdi-lhes o rasto. Espero que o vulcão não se tenha extinto, ou o mago não se reformasse. Que sejam felizes.














































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